À medida
que as ferramentas de tecnologia vêm avançando, o debate sobre a importância do
uso delas, incluindo o simulador de direção na formação dos condutores também é
crescente. Hoje, existe uma convicção de que o uso do simulador irá melhorar a
formação dos condutores e isso é perfeitamente plausível. Um dos principais
responsáveis pelo aumento dos fatores de risco dos motoristas novatos se
envolverem em um acidente segundo a psicóloga inglesa Lisa Dorn é a
incapacidade de prever e gerir riscos. Os motoristas novatos tiveram menos
contato com o trânsito e menos tempo de desenvolver e refinar seus modelos
mentais. Eles são menos capazes de prever corretamente a evolução das prováveis
situações de risco no trânsito.
No
Brasil, muito tem se discutido a respeito do simulador de direção desde a
publicação da resolução 444/2013 pelo Conselho Nacional de Trânsito –CONTRAN.
Tenho lido e assistido dezenas de matérias, entrevistas, reuniões e audiências
públicas sobre o assunto que aparentemente é bastante polêmico. Digo
aparentemente polêmico por toda a cortina de fumaça que paira sobre o assunto
obstruindo nossas visões para enxergarmos a realidade.
Após
ouvir tantos especialistas se pronunciarem pulverizando dados estatísticos e
estudos de outros países, resolvi dar a real atenção que o tema merece. Além de
professora, sou estudante e apaixonada por pesquisa e um dos papéis do
pesquisador é questionar. Desde o início, minhas perguntas sempre foram as
mesmas. Perguntas sem respostas: o simulador de direção é capaz de contribuir
para uma melhor formação do condutor no Brasil? O simulador reduzirá em 50% os
índices de mortes e acidentes de trânsito no Brasil? O simulador é um
instrumento de educação para o trânsito no Brasil? Que tipo de simulador é
melhor para atender às necessidades dos candidatos à habilitação? Uma aula no
simulador equivale à duas, três ou quatro aulas no ambiente real no Brasil?
Quão realista o simulador precisa ser? Os candidatos à habilitação irão levar o
simulador a sério? Quais as provas de que a aprendizagem adquirida no simulador
será transferida para o mundo real? Porque 15 metros de espaço para o simulador
e não 10, 11, 12 ou 50? Porque 5 aulas no simulador e não 1, 2, 5 ou 30?
Ao
conseguir finalmente o estudo encomendado pelo Governo à Universidade Federal
de Santa Catarina cujo título “Estudo do uso de simuladores e recursos de
realidade virtual para formação de condutores em autoescolas”, que aqui
chamarei de “nosso estudo”, acreditei que encontraria todas as respostas para
as minhas perguntas ou pelo menos a maioria. Óbvio, não? Com tanta gente
falando por aí que o simulador é a solução para os problemas do trânsito no
Brasil, precisamos das respostas. Precisamos do embasamento teórico!
Ao ler e
reler todo o estudo referência que temos em nível nacional a respeito do tema
simulador de direção na formação de condutores, confesso fiquei decepcionada. O
estudo mais parece uma colcha de retalhos onde o “copiar/colar” foi a premissa.
Um assunto tão sério não poderia ter sido tratado com tanto descaso,
principalmente por uma Universidade Federal. Um exemplo básico do que estou
falando é que existem diversas afirmações, convicções e declarações sem citar
as referências. Quem está no meio acadêmico deve concordar comigo que uma regra
básica de um estudo acadêmico é citar as referências daquilo que escreve a não
ser que tenha sido um conhecimento por você desenvolvido, algo novo, que
ninguém tenha escrito. Neste caso, você apresenta os dados da sua pesquisa dos
seus questionários, da amostra que usou, etc. Sem comprovação científica, o que
você escreve passa a ser um mero “achismo”. Assim como este texto escrito por
mim.
À medida
que fui percebendo que minhas perguntas continuavam sem respostas com o “nosso
estudo”, fui buscar informações nas referências não citadas no texto, mas
listadas ao final do trabalho e em muitas outras referências. Na verdade, já
perdi as contas de quantos artigos li a respeito. Até o momento, acima de 200.
É assim que se constrói o conhecimento.Ainda há muito que escrever, mas vou me
ater a somente minhas dúvidas iniciais, já que sei que diversas outras ainda
virão.
O simulador de direção é capaz de contribuir para uma melhor formação do condutor no Brasil?No “nosso estudo” essa pergunta não teve resposta. Não houve um trabalho realizado com candidatos à habilitação que foram formados com o simulador e outros sem o simulador de direção, para posteriormente compararmos. E além de não haver resposta, essa pergunta ainda gera outras perguntas: quais são os reais índices de aprovação nos exames de direção do país? Quantas aulas em média cada aluno faz antes de prestar o exame prático? Os candidatos que se formaram com o simulador fizeram menos aulas? Os candidatos que se formaram com o simulador foram aprovados mais rapidamente? Eles adquiriram habilidades mais rapidamente que o outro grupo?
O
simulador reduzirá em 50% os índices de mortes e acidentes de trânsito no
Brasil? Essa é a
melhor de todas as perguntas, porque é tão mascarada a maneira como os dados
estatísticos são simplesmente jogados para a população aqui no Brasil que dará
muito mais trabalho do que um simples texto. Diariamente ouvimos dados
estatísticos e vamos replicando por aí me lembrando uma velha brincadeira de
infância: o telefone sem fio. Quantas pessoas falaram por aí que “Os EUA
realizou uma pesquisa que comprova que o uso do simulador pode reduzir pela
metade o número de acidentes, nos 24 primeiros meses após aprovação da
habilitação”. Quantas vezes ouvimos? E onde estão esses dados? Quais foram os
estudos? Quais as características dos simuladores? Quais as características dos
alunos? Quais as características da legislação desses países?
Em
primeiro lugar, existem centenas de estudos relacionados ao simulador de
direção, muitos dos próprios fabricantes e mais especificamente de como o
sistema deve ser. Já a literatura acadêmica oferece pouca orientação sobre o
conteúdo ideal e estudos consistentes como o de Wade Allen. Em seu estudo “The
Effect of Driving Simulator Fidelity on Training Effectiveness” no ano de 2007
foi onde encontrei os tais 50% tão divulgados e deturpados. Aliás, esse é o
único momento em que o “nosso estudo” cita a redução de 50%. Mas vamos às
condições.
Para
começo de conversa o estudo de Allen foi realizado na Califórnia, um dos
cinquenta Estados Americanos e também na Nova Escócia uma das províncias do
Canadá. Durante 4 anos na Califórnia e 2 anos na Nova Escócia, eles estudaram o
comportamento de condutores formados em três tipos diferentes de simuladores e
compararam as taxas de envolvimento em acidentes com motoristas novatos que não
foram formados com o simulador. Ao todo participaram do estudo 554 jovens.
Eles
avaliaram três tipos de simuladores, porém com cenários e situações
semelhantes. O primeiro simulador (NFOVD) é um simulador de mesa equivalente ao
vídeo game que encontramos no mercado. Tem um estreito campo de visão,
representa 50% do tamanho real da imagem com os controles de jogos e espelhos
retrovisores laterais. Os alunos que faziam parte dessa amostra eram estudantes
do ensino médio que fizeram os testes nas aulas de educação para o trânsito.
E por
fim, o terceiro simulador (WFOVC) é um veículo com um amplo campo de visão,
que apresenta 100% o tamanho da imagem com espelhos retrovisores. Esse
simulador é um modelo considerado mais avançado pois tem um sistema chamado
de “estado da arte” onde os movimentos que um carro faz são simulados com o
uso da cinestesia e graus de liberdade (movimentos translacionais e
rotacionais). Não com a perfeição de um ambiente real, mas uma versão muito
mais avançada e próxima da realidade. Abaixo, os modelos dos simuladores
testados por Allen.
Eles
investigaram por mais de dois anos o tempo que cada grupo levou para obter a
carteira de motoristas e o envolvimento deles em acidentes de trânsito. E ainda
assim, consideraram essa média de tempo boa para os dados da literatura, mas
problemática porque muitos dos jovens demoraram mais do que os outros para
obterem a carteira.
De acordo
com o estudo, o índices de acidentes no modelo 3 foram seguramente inferiores
aos motoristas tradicionalmente treinados na Califórnia e no Canadá. A taxa de
acidentes com os motoristas formados neste modelo foi menor que a metade do
segundo modelo do simulador e 66% menor que a taxa dos motoristas formados
tradicionalmente. Segue o gráfico.
Nosso
estudo:
Agora vamos aos estudos do Brasil. Foram construídos três protótipos. O primeiro protótipo denominado P1 é um simulador de mesa com jogos comerciais de corrida. Equivalente ao NFOVD. O segundo protótipo denominado P2 é um simulador intermediário que tem as funcionalidades mínimas de um simulador compacto. São três monitores. Uma versão melhor do WFOVD de Allen. E o terceiro protótipo, denominado P3 é um simulador mais avançado com três monitores, um sistema de cinestesia com dois graus de liberdade montado na base do motorista. O que permite um movimento parecido com o movimento de um automóvel. Não é equivalente ao WFOVC tanto pela estrutura, quanto pela projeção.
Agora vamos aos estudos do Brasil. Foram construídos três protótipos. O primeiro protótipo denominado P1 é um simulador de mesa com jogos comerciais de corrida. Equivalente ao NFOVD. O segundo protótipo denominado P2 é um simulador intermediário que tem as funcionalidades mínimas de um simulador compacto. São três monitores. Uma versão melhor do WFOVD de Allen. E o terceiro protótipo, denominado P3 é um simulador mais avançado com três monitores, um sistema de cinestesia com dois graus de liberdade montado na base do motorista. O que permite um movimento parecido com o movimento de um automóvel. Não é equivalente ao WFOVC tanto pela estrutura, quanto pela projeção.
Preciso
de um parágrafo só a título de comparação. Os simuladores usados em pesquisas e
desenvolvimento mais avançados possuem plataformas de movimentação em 6 graus
de liberdade, projetores externos de 360 graus, mesa de deslocamento para gerar
acelerações lineares e cabine em formato interno real. Mas tudo bem, esses
simuladores só são usados em casos de pesquisas pois são caríssimos. Mas há os
simuladores de cabine que são um automóvel onde as imagens projetadas possuem
um campo de visão entre 150 a 270 graus e as plataformas de movimentação de até
6 graus de liberdade. Esses também estão fora do nosso alcance. Mas existe
também os simuladores compactos que em seu formato mais completo possuem
assento com vibração e sistema de movimentação com 2 graus de liberdade. E
depois dele um quarto modelo que são os simuladores de mesa.
Bem.
Voltando ao “nosso estudo”. Ao chegar na parte chamada “Testes e ensaios
preliminares”. Foram realizados testes com os próprios colaboradores e técnicos
envolvidos no desenvolvimento dos equipamentos. Até aí tudo bem. Os testes eram
para validar os simuladores e melhorar suas performances. Depois, o estudo
passa para a experiência em uma autoescola em Minas Gerais. Segundo o “nosso
estudo”:
Para
efeito de pesquisa preparatória para a clínica de simuladores realizada em
Florianópolis, foi realizada uma observação do uso de um simulador veicular em
uma autoescola em Pouso Alegre.O modelo de simulador analisado é uma inovação
em âmbito nacional creditada pelo proprietário da autoescola.O simulador de
Pouso Alegre não conta com a cinestesia, mas apenas com a imersão física
(cabine) e audiovisual.Os alunos recebiam com entusiasmo a aula no simulador e
afirmaram que ele proporcionou uma aprendizagem muito útil para suas aulas
práticas subsequentes...
Conclui-se
que essa iniciativa possui grande mérito e constitui estudo de caso
indispensável para a determinação de um sistema brasileiro de ensino em
autoescolas mediado por simuladores de direção.
Conclui-se que: não conclui-se nada. Onde estão os resultados? Qual foi o tamanho da amostra? Quem foram os alunos? Quantos homens? Quantas mulheres? Quais elementos comprovam que eles saíram melhor formados?
Depois
dessa experiência na autoescola em Minas Gerais, foi a vez da avaliação dos
protótipos em uma autoescola em Santa Catarina. Os três modelos de simuladores
foram submetidos a um grupo de teste durante dois meses e meio com um total
de 19 alunos de uma autoescola em Santa Catarina. Sendo 6 alunos no P1 no
período de 6 a 16 de julho (10 dias); 5 alunos no P2 no período de 2 a 13 de
agosto (11 dias) e 8 alunos no P3 no período de 18 a 27 de agosto (9 dias). O
ano não foi informado. Incluíram no estudo além dos alunos, instrutores de
direção e visitantes especiais. Me pergunto até hoje o que seriam esses
visitantes especiais.
Segundo o
“nosso estudo” os alunos foram selecionados aleatoriamente e homogeneamente em
sua distribuição de sexo, idade. Esqueceram de citar as condições também porque
na amostra tinham pessoas habilitadas, não-habilitadas, com trauma, que já
dirigiam sem estar no processo de habilitação. Enfim, realmente bastante
“homogênea”.
Os testes
foram realizados em um CFC em Florianópolis em uma sala de 14 metros quadrados
preparada mediante critérios ergonômicos tais como conforto, iluminação, som,
segurança, etc. Aqui, caberia uma nova pergunta: porque 14 metros e não 15? Ou
8? Ou 10? Não há respostas.
Cada
testador participou de um programa de cinco sessões. Cada sessão contando com
trinta minutos de duração com conteúdos definidos. Aqui cabe outra pergunta:
porque 5 sessões e não 1, 2 ou 10? Não há respostas.
A super amostra de 19 alunos avaliados em média em 10 dias foram entrevistados, observados, registrados com fotos e vídeos e não divulgados. Os resultados? Onde estão os resultados? O que vocês descobriram?
Achei!!
Só que não. No item 6 com o título “Resultados dos experimentos”. Nesta sessão,
segundo o “nosso estudo” foram descritos os resultados gerais dos experimentos,
começando com informações sobre os testadores, e partindo para uma tabela
comparativa dos três modelos de simuladores.
Parece
piada, mas não é, infelizmente. No “nosso estudo” colocaram neste capítulo as
fotos dos participantes com as seguintes legendas:
A, 18 anos, nunca havia dirigido.
V, 19 anos, dirigia há 4 sem habilitaçãoS, 27 anos, dirige desde os 16 anos, mas sem habilitação
W. 56 anos, ex-motorista de caminhão, há 5 anos sem habilitação.
V. 22 anos, nunca havia dirigido. Dizia-se “muito nervosa” com a ideia.
C. 30 anos. Dirige há 10. Havia perdido sua habilitação por pontos.
E por aí
vai. Vejam como a amostra é homogênea! Vejam como o estudo teve um objetivo
claro de avaliação! E a tabela comparativa dos resultados? Falam bem
superficialmente sobre as especificações novamente dos simuladores. Que o P1
tem baixa imersão que o ganho de confiança foi bom nos três protótipos que os
três apresentaram aprendizagem intelectual, que o P1 é problemático em
aprendizagem sensorial e aprendizagem de habilidades motoras. Ah! E falam
também que a imersão na experiência de simulação foi aumentada com a
cinestesia, mas em pouca quantidade e que não é recomendável a cinestesia como
recursos essenciais em simuladores. Como assim??Porque não? A literatura
demonstra que entre 5% a 10% da população sofre com a Simulation Sickness que é
a doença do simulador que justamente é reduzida pelo efeito cinestésico. Como é
dispensável?
Vamos
comparar?
E aí, querem comparar os estudos daqui com os estudos dos “EUA”? Faça-me um favor! Vamos parar de brincar de fazer pesquisa. Vamos parar de pensar que brasileiro é burro e aceita qualquer dado estatístico facilmente. Vamos parar de pensar que dono de CFC é analfabeto e idiota. Vamos assumir nossa responsabilidade por um trânsito mais seguro com medidas e políticas públicas sérias. Vamos investir em educação! E principalmente, vamos parar de multiplicar dados estatísticos infinitamente diferentes da nossa realidade.
Simulador da Califórnia e Canadá
|
Simulador do Brasil
|
Quantidade de alunos
554
|
Quantidade de alunos
19
|
Tempo de estudo
4 e 2 anos
|
Tempo de estudo
2 meses e meio
|
Simulador com cinestesia
Redução de mais de 50%
|
Simulador com cinestesia
Não existem dados
|
Simulador sem cinestesia
Redução de aprox.. 27%
|
Simulador sem cinestesia
Não existem dados
|
Amostra
Alunos candidatos à habilitação
|
Amostra
Alunos candidatos à habilitação, motoristas
habilitados, motoristas inabilitados, etc.
|
E aí, querem comparar os estudos daqui com os estudos dos “EUA”? Faça-me um favor! Vamos parar de brincar de fazer pesquisa. Vamos parar de pensar que brasileiro é burro e aceita qualquer dado estatístico facilmente. Vamos parar de pensar que dono de CFC é analfabeto e idiota. Vamos assumir nossa responsabilidade por um trânsito mais seguro com medidas e políticas públicas sérias. Vamos investir em educação! E principalmente, vamos parar de multiplicar dados estatísticos infinitamente diferentes da nossa realidade.
Provem
que o simulador é eficiente e eficaz. Peguem uma amostra significativa para o
tamanho do país, analisem o comportamento antes e depois. Avaliem os condutores
formados com o simulador e os formados sem o simulador. Acompanhem eles após o
período da permissão e um ano depois. Tragam os dados e resultados. Se
conseguirem provar que o simulador reduziu os índices de acidentes ou se fez
com que os alunos se formassem melhor, eu serei a primeira a levantar a
bandeira do simulador. Serei ativista dos movimentos “pela vida com o
simulador” "eu amo o simulador" "Sou 100% simulador". Sem
isso, não há como dialogar, Capisce?
Quanto às
minhas outras perguntas sem respostas, eu preciso responder?
por
Roberta Torres*
palestrante e consultora de trânsito.
http://www.robertatorresl.com/
palestrante e consultora de trânsito.
http://www.robertatorresl.com/
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